O HALLOWEN E O FANTASMA DO DOMÍNIO DE SALA
Quando o discurso sobre domínio de sala isenta os demais atores educacionais de suas responsabilidades e sobrecarrega o professor.
Há fantasmas que não precisam de lençóis brancos, correntes enferrujadas ou casas abandonadas para assombrar alguém. Alguns aparecem sob a luz fluorescente de uma sala de aula, entre carteiras desalinhadas, conversas paralelas e um planejamento cuidadosamente elaborado que parece perder o sentido nos primeiros quinze minutos.
Entre os muitos fantasmas que rondam o cotidiano escolar, existe um particularmente persistente: o fantasma do domínio de sala.
Basta uma turma apresentar dificuldades de comportamento para que uma expressão bastante conhecida ressurja nos corredores escolares: "o professor não tem domínio de sala". A sentença, aparentemente simples, carrega uma concepção problemática: a de que a organização do ambiente escolar depende quase exclusivamente da capacidade individual do docente.
Mas será que o professor deve ser o único responsável pela disciplina dos estudantes?
É evidente que a condução da turma faz parte do trabalho docente. Estabelecer limites, organizar atividades, mediar conflitos e desenvolver estratégias pedagógicas são responsabilidades inerentes à profissão. Entretanto, reconhecer essas atribuições não significa transformar o professor no único responsável pelos comportamentos que se manifestam na sala de aula.
A escola é uma instituição coletiva. Gestores, famílias, estudantes e professores possuem responsabilidades distintas, mas complementares, na construção de um ambiente favorável à aprendizagem. Quando a indisciplina é atribuída exclusivamente à suposta incapacidade do professor de controlar seus alunos, desconsideramos essa rede de relações e reduzimos um problema complexo a uma deficiência individual.
Há, ainda, uma dimensão frequentemente esquecida nessa discussão: o professor é um trabalhador.
Sua presença na escola não se resume a uma vocação, a um gesto de generosidade ou a uma disposição ilimitada para administrar conflitos. Ele exerce uma profissão que exige formação, planejamento, responsabilidade e esforço intelectual. Por isso, é fundamental que os estudantes desenvolvam a consciência de que estão diante de alguém que está trabalhando.
Quando um aluno interrompe deliberadamente uma explicação, desrespeita orientações ou inviabiliza continuamente uma atividade, não está apenas contrariando uma figura de autoridade. Está interferindo no exercício profissional de alguém e no direito de aprendizagem dos demais colegas.
Naturalmente, crianças e adolescentes estão em processo de desenvolvimento. Suas habilidades de autorregulação, convivência e responsabilidade ainda estão sendo construídas. Contudo, reconhecer essas particularidades não significa dispensá-los de aprender a respeitar o trabalho alheio. Pelo contrário, essa aprendizagem também constitui uma responsabilidade educativa da escola e das famílias.
Nesse contexto, é necessário distinguir autoridade de autoritarismo. Defender o respeito ao professor não significa exigir obediência cega ou transformar a sala de aula em um espaço de silêncio absoluto. Uma educação democrática pressupõe diálogo, participação e liberdade, mas também exige responsabilidade e reconhecimento dos limites da convivência coletiva.
Afinal, uma sala de aula não deveria ser um cemitério de perguntas, curiosidades e manifestações intelectuais. Entretanto, também não pode se tornar um ambiente no qual a liberdade individual seja utilizada para justificar comportamentos que comprometem sistematicamente o trabalho docente.
Talvez o aspecto mais perverso do fantasma do domínio de sala esteja justamente na maneira como ele desloca responsabilidades. Quando uma turma apresenta problemas recorrentes de comportamento, questiona-se imediatamente a postura do professor, mas nem sempre se discutem as ações da gestão escolar, a participação das famílias, as condições institucionais ou a responsabilidade dos próprios estudantes.
Assim, o professor passa a responder individualmente por problemas que ultrapassam sua atuação profissional. Exige-se que ensine, motive, acolha, discipline, administre conflitos e encontre soluções para situações que deveriam mobilizar toda a comunidade escolar.
Isso não significa negar sua responsabilidade pedagógica, mas reconhecer que ela possui limites. Nenhum profissional deveria ser responsabilizado isoladamente por problemas cuja resolução depende da participação de diferentes sujeitos.
Neste Halloween, portanto, talvez seja necessário exorcizar uma concepção bastante enraizada no cotidiano escolar: a de que um bom professor é aquele capaz de controlar, sozinho, todos os comportamentos de seus estudantes.
O verdadeiro domínio de sala não deveria ser compreendido como controle absoluto, mas como a construção coletiva de condições que permitam ensinar e aprender.
Afinal, quando todos são responsáveis pela educação, por que apenas o professor costuma ser responsabilizado pela indisciplina?
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